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A felicidade como mercadoria

19/06/2020 - Autor:  José Eustáquio Moreira de Carvalho  - Economista, Financista e Conselheiro Filosófico

E aí, já “comprou” a sua felicidade? Apesar das ofertas tentadoras, espero que não, pois hoje este é o assunto sobre o qual falaremos.

E aí, já “comprou” a sua felicidade? Apesar das ofertas tentadoras, espero que não, pois hoje este é o assunto sobre o qual falaremos.

Desde os anos 1980, a busca da felicidade se tornou quase uma obsessão. À época todos queriam ser bem sucedidos. Mas, a partir do início do século XXI, a situação “piorou” quando a sociedade consumista instalada levou as pessoas a considerar que ser feliz é ter tudo aquilo que podiam tirá-las do anonimato. Todos querem ser celebridades.

Assistimos, de novo, o surgimento, ao lado de importantes pensadores e filósofos, dos “caronistas” de plantão. Aliás, como sempre aconteceu em todas as épocas do aparecimento das grandes ideias: a revolução do marketing, a gestão da qualidade total, as teorias da motivação, a inteligência emocional, a economia comportamental, o coach, entre tantas outras. Claro que com a felicidade não seria diferente. Estes “caronistas” são especialistas em pegar, ou pelo menos tentar surfar, todas as ondas que sinalizam possibilidades de “sucesso” profissional e bom faturamento. Raros são os que conseguem ser campeões nesta modalidade de surf.

A felicidade, enquanto “mercadoria”, surge a partir de um indicador sistêmico, denominado Felicidade Interna Bruta (FIB), desenvolvido em um minúsculo país asiático, situado no Himalaia: o Reino do Butão. É um indicador nascido em 1972, cuja autoria é atribuída ao rei butanês Jigme Singya Wangchuck. Desde então, o reino de Butão, com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), começou a colocar esse conceito em prática, e atraiu a atenção do resto do mundo com sua nova fórmula para medir o progresso de uma comunidade ou nação. Nada poderia ter sido melhor apadrinhado para facilitar a ação dos “caronistas”: certamente foram uníssonos em afirmar “é nesta onda que vou surfar!”.

A FIB se baseia na premissa de que o objetivo principal de uma sociedade não deveria ser somente o crescimento econômico, mas a integração do desenvolvimento material com o psicológico, o cultural e o espiritual – sempre em harmonia com a Terra. Assim, o cálculo da “riqueza” deve considerar outros aspectos além do desenvolvimento econômico, como a conservação do meio ambiente e a qualidade de vida das pessoas. Uma premissa, que se apresentou como a cereja no bolo dos “caronistas”.

Creio que está na hora de esclarecer como é composto o indicador da Felicidade Interna Bruta, em sua proposta original. Ele é calculado a partir de nove dimensões ou domínios:

1ª. Bem estar psicológico - Avalia o grau de satisfação e de otimismo que cada indivíduo tem em relação a sua própria vida. Os indicadores incluem a prevalência de taxas de emoções tanto positivas quanto negativas, e analisam a autoestima, sensação de competência, estresse, e atividades espirituais. 

2ª. Saúde - Mede a eficácia das políticas de saúde, com critérios como autoavaliação da saúde, invalidez, padrões de comportamento arriscados, exercício, sono, nutrição, etc. 

3ª. Uso do tempo - O uso do tempo é um dos mais significativos fatores na qualidade de vida, especialmente o tempo para lazer e socialização com família e amigos. A gestão equilibrada do tempo é avaliada, incluindo tempo no trânsito, no trabalho, nas atividades educacionais, etc. 

4ª. Vitalidade comunitária - Foca nos relacionamentos e interações nas comunidades. Examina o nível de confiança, a sensação de pertencimento, a vitalidade dos relacionamentos afetivos, a segurança em casa e na comunidade, a prática de doação e de voluntariado. 

5ª. Educação - Leva em conta vários fatores como participação em educação formal e informal, competências, envolvimento na educação dos filhos, valores em educação, educação ambiental, etc. 

6ª. Cultura - Avalia as tradições locais, festivais, valores nucleares, participação em eventos culturais, oportunidades de desenvolver capacidades artísticas, e discriminação por causa de religião, raça ou gênero. 

7ª. Meio ambiente - Mede a percepção dos cidadãos quanto à qualidade da água, do ar, do solo, e da biodiversidade. Os indicadores incluem acesso a áreas verdes, sistema de coleta de lixo, rede de esgotos, etc. 

8ª. Governança - Avalia como a população enxerga o governo, a mídia, o judiciário, o sistema eleitoral, e a segurança pública, em termos de responsabilidade, honestidade e transparência. Também mede a cidadania e o envolvimento dos cidadãos com as decisões e processos políticos. 

9ª. Padrão de vida - Avalia a renda individual e familiar, a segurança financeira, o nível de dívidas, a qualidade das habitações, etc.

Creio não haver necessidade de comentar cada uma dessas dimensões, mas vale a pena conferir o processo de medição, já que foram criados questionários para serem utilizados como ferramenta “padrão” para avaliação da FIB individual e, por extensão, a FIB organizacional. O questionário modelo do Centro de Estudos do Butão (CEB) tem 209 perguntas, cobrindo as 9 dimensões ou domínios o que, segundo pesquisadores, além de longo toma muito tempo para ser preenchido (cerca de 3 horas).

Não vou reproduzir nenhum questionário, mas sim me referir a um bem conhecido no Brasil – desenvolvido pela Icatu-Hartford –, destacando algumas das 32 questões que dele constam. Ainda que bastante curto, quando comparado ao original do CEB, ele pretende cobrir os nove domínios. Todas as questões admitem 5 respostas e estabelecem o seu valor em pontos (número no parêntese): A-Nunca (0), B-Raramente (1), C-Às vezes (2), D-Bastante (3) e E-Sempre (4). Para a avaliação do entrevistado foi estabelecido os seguintes intervalos de pontuação:

De 0 a 20 = Muito infeliz;

De 21 a 40 = Infeliz;

De 41 a 60 = Satisfeito;

De 61 a 80 = Feliz; e

De 81 a 128 = Muito feliz.

Por estes critérios, ao preencher este questionário, mesmo que você não seja epilético, mas age a partir de espasmos e convulsões, as suas  respostas certamente irão oscilar entre as questões B e C. Então você será qualificado como uma pessoa Infeliz ou Satisfeita, já que a sua pontuação estará entre 32 e 60. E aí, o questionário é para medir felicidade ou satisfação?

Como prometido, selecionei 11 questões (cerca de um terço do total) do questionário para que você e eu, a partir dos critérios apresentados, possamos tirar as nossas conclusões sobre a credibilidade e eficácia da utilização dos resultados, junto a nós mesmos e ao mundo ao nosso redor. Aqui estão elas:

Questão 2 – Alimenta-se bem?

Questão 4 – Considera-se bem remunerado?

Questão 7 – Está satisfeito com a sua aparência?

Questão 10 – Controla seu orçamento?

Questão 14 – Costuma alcançar as metas estipuladas?

Questão 17 – Vê o lado positivo das coisas?

Questão 20 – Administra bem o tempo?

Questão 24 – Está satisfeito com a sua relação afetiva?

Questão 26 – Encontra amigos/família com frequência?

Questão 28 – Ajuda a comunidade?

Questão 32 – Reflete a preocupação com o futuro do planeta em atitudes do

                         cotidiano?

Vou deixar para você o exercício de responder e analisar estas questões, apenas refletindo e te convidando a fazer o mesmo, sobre aspectos importantes, comuns ao se responder questionários:

  • Quem responde está sozinho ou na presença de um entrevistador?
  • Será preciso se identificar no questionário?
  • O questionário está sendo solicitado por um empregador e o entrevistador é um colega de trabalho?
  • Haverá retorno e de que forma ele será feito?
  • Ao final o entrevistado vai receber a avaliação pessoal ou uma avaliação da sua organização?

Alguns alertas se fazem necessários para uma boa avaliação do contexto ao responder e dos resultados da pontuação.

  1. Se o entrevistado está sozinho ou na presença de um entrevistador, há grande chance de inverdades nas respostas;
  2. Se as respostas forem analisadas por um empregador, a possibilidade de inverdades também é real, potencializada pelo receio do uso dessas respostas contra o entrevistado;
  3. O resultado da aplicação deste questionário medirá, no máximo o momento feliz ou infeliz do entrevistado, portanto nada afirmativo em relação à felicidade dele, ou melhor, ao seu entendimento do que seja felicidade;
  4. Qualquer que seja o resultado, ele não será nada além de um retrato instantâneo a respeito do entrevistado ou a respeito da sua organização;
  5. Por fim, posso afirmar, que se aplicado pouco tempo após, mesmo algumas horas apenas, os resultados serão diferentes sobre o entrevistado e sobre a organização a que pertence.

Vale a pena um exemplo do mundo real. Pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), publicada em dezembro de 2014, produziu um resultado, no mínimo curioso: as respostas dadas por 509 estudantes dos mais variados cursos da universidade, produziu um indicador médio da FIB de 60,58, o que  caracteriza a Unicamp como um universidade Razoavelmente Feliz.  O que significa uma universidade assim classificada vou continuar buscando entender, para o que te convido também.

Voltando ao mercado da Felicidade, merecem comentários os seguintes pontos:

  • Livros disponíveis no mercado – não me dei ao trabalho de contar todos, já que a quantidade é assustadora. Títulos de toda ordem: de Dez Leis para Ser Feliz, 7 maneiras de ser feliz, A Ciência da Felicidade, Os mitos da felicidade, Felicidade ou Morte até a Felicidade é Inútil são facilmente encontrados. Apenas para citar alguns existentes no mercado nacional. Ah! todos os citados, entre dezena de outros, participam da minha estante.
  • Cursos e treinamentos – visitando o Google fica-se assustado com a quantidade de oferta e tipo de cursos e treinamentos. Para não me estender, vou citar apenas o que está aqui ao meu lado em Brasília. A Universidade de Brasília oferece, desde 2018, na Faculdade UnB Gama (FGA), campus que concentra cinco cursos de engenharia, a disciplina Felicidade. Temos também aqui na cidade uma organização privada, na área de consultoria, que oferece programas de treinamento e consultoria para implantação de Programas de Felicidade nas organizações. Em face do sucesso alcançado, hoje já oferece curso especial para Formação e Certificação de Facilitadores em FIB.

Concluindo, afirmo veementemente que nada tenho contra “caronistas” que estão atuando na “área” da felicidade, da mesma forma, e mais veementemente, tenho tudo a favor das pessoas se prepararem e se fortalecerem para resistirem às ofertas de produtos ou pacotes de produtos e serviços, que são apresentados como de aplicação universal, com eficácia idem. Na prática é possível ver experiências que não foram bem sucedidas, tanto no campo pessoal quanto no organizacional. A propósito vale a pena ver o ranking dos países em FIB. O Relatório Mundial da Felicidade (World Happiness Report – WHR), de 2019, englobando 156 países e considerando o período 2016/2018, mostrou o Brasil caindo da 28ª para a 32ª posição. A título de curiosidade os Estados Unidos estão na 19ª e o Butão na 95ª. Interessante notar que o país onde foi estudado e desenvolvido o modelo da FIB, e que ainda contou com o apoio do PNUD e de grande número de países que se interessaram pela novidade, ter ficado muito distante do que “inventou”. Um outro detalhe: se é difícil para o Butão, um país com apenas 46.640 km2 de superfície e uma população de 775 mil habitantes, estar bem posicionado nesse ranking, imaginem o nosso com dimensão continental. Ainda assim ficamos bem à frente.

O mais grave nisso tudo é o enorme e precioso tempo que perdemos na busca desta felicidade de ficção, deixando de ser feliz e curtir os momentos onde isso acontece, os quais nos empurram e podem tornar a nossa existência um paraíso terrestre.

Um último lembrete: em sendo o ser humano um milagre único não repetido – é no que acredito – ele tem a prerrogativa de ter uma felicidade única. Que tal pensarmos na existência de uma Felicidade Interna Única (FIU) em vez de continuar nesta ficção de Felicidade Interna Bruta (FIB)?

Para finalizar, é hora de refletir na companhia de um poeta e dos grandes pensadores que dispensaram energia e tempo sobre o tema Felicidade.

Carlos Drummond de Andrade:A felicidade é um estado de espírito transitório por natureza. Nós temos momentos de plenitude, divinos, celestiais, mas, ao lado disso, tem a rotina, a dor de barriga, a dor de dente, a conta por pagar.”

Aristóteles: “O homem sábio não busca o prazer, mas a libertação das preocupações e sofrimentos. Ser feliz é ser autossuficiente.”

Buda: A felicidade não depende do que você tem ou quem você é.
Só depende do que você pensa.”

Confúcio:  “A melhor maneira de ser feliz é contribuir para a felicidade dos outros.”

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